Guxtaw Uyräsu

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segunda-feira, 17 de maio de 2021

O Sol, a Lua e os botos

As aventuras entre os gêmeos Koarasy e Jasy (Sol e Lua) vão muito além dos poucos contos que a maioria conhece. Inicilamente, o grande espírito criador Mair, também chamado de Nhanderu ou Nhandejara (pelos Guaranis), os criou após a noite ter se libertado do coco de tucumã e devorado o mundo, pois antes só havia luz. Koarasy ficou responsável por dividir o dia da noite e Jasy passou a cuidar das marés, das plantas e do seu desenvolvimento.

Os dois realizaram muitas coisas no mundo e realizaram transformações. Diferente do Deus criador, eles não tinham poder de criar, mas podiam transformar. Koarasy não ficou muito lembrado por realizar essas transformações porque era totalmente indiferente com a vida aqui em baixo enquanto Jasy dava essa atenção na medida do possível e um de seus feitos foi juntar muitas de suas estrelas para formar um caminho que guiasse as almas durante a noite rumo ao gwajupiá (o paraíso). Outro feito de Jasy foi transformar uma jovem que morreu de amor por ele, sem que ele soubesse disso antes, em vitória-régia.
Jasy e Koarasy não podiam ser chamados de homens ou mulheres. Como espíritos, possuíam as duas naturezas. Porém, certo dia Koarasy se encantou com a beleza física de uma jovem e sua natureza masculina explodiu. Koarasy não podia largar seu posto, então extraiu seu pênis e o lançou no rio junto com sua consciência de homem. Assim surgiu o Aiká (boto rosa) que desde sua ‘primeira vez’, nunca mais quis sair do mundo dos humanos sempre encantando belas jovens para seu deleite.
Jasy ficou sabendo da malandragem do irmão e sentiu vontade de fazer o mesmo. Extraiu sua masculinidade física e mental, lançou também no grande rio e assim surgiu o Tukuxi (boto cinza).
Os corpos originais deles permaneceram no céu apenas com a natureza e consciência femininas justificando ainda mais seus nomes onde Koara’sy é Mãe do Dia (ou do ‘tempo contado’ dependendo do dialeto) e Jasy é Mãe da vegetação/ das plantas.

Jurupari, o tuxawá



O segundo Jurupari da mitologia tupi, é um guerreiro e chefe que existiu na região amazônica e foi o responsável por vários feitos, milagres e estratégias bem sucedidas nas guerras. Ele é descendente tanto de um dos quatro espíritos que regem o mundo (Yamandu é seu bisavô) como também o lado masculino de Koarasy/Gwarasy (o sol).

Sua mãe, Seusy [Ceuci], imaginou ter engravidado do fruto do Mapaty quando estava em período fértil. Mas na verdade foi Koarasy que também estava no cio, não resistiu à beleza da moça, arrancou seu pênis e o lançou no grande rio em forma de boto cor de rosa junto com sua consciência masculina. O restante do corpo dele permaneceu no céu com a consciência feminina. Seusy ficou toda lambuzada após comer os frutos e foi tomar banho no rio onde encontrou com o boto, caiu nos seus encantos e ‘cruzaram’ dentro d’água. O boto (Koarasy) a fez esquecer do episódio o que a fez imaginar ter sido engravidada pela fruta.
Até sua adolescência, o filho de Seusy se chamava Ubaraíra (filho da fruta). Recebeu o nome de Jurupari quando atingiu a idade adulta e precisava abandonar o nome de criança. O nome de adulto foi uma homenagem ao suposto deus Jurupari que havia se apresentado aos povos em eras mitológicas. Na verdade, era o demônio do fundo do rio que, quando livre, fingiu-se de deus criador para ludibriar os povos. Nessa região, ninguém sabia que ele havia sido desmascarado e aprisionado novamente.
Jurupari, o guerreiro, se tornou tuxawá (chefe) e até hoje é lembrado e comemorado por muitos povos amazônicos.

Jurupari, o demônio

Diferente do que maioria pensa, Jurupari não é um e sim Dois personagens diferentes. O primeiro (da imagem) é o espírito maligno/demônio que criou vida a partir dos pesadelos do espírito criador e adquiriu sua sabedoria maligna quando comeu o fruto da árvore do conhecimento. Depois de causar muita desordem e desgraça no mundo, o demônio Jurupari foi definitivamente aprisionado. Mas isso não significa que ele governe esse mundo, ele é apenas mais um prisioneiro. A governante do inferno submerso é Sukury, a filha da Boyuna que herdou o reinado após a morte da mãe.
Mesmo aprisionado, Jurupari é capaz de fazer sua mente se aventurar pelo mundo dos vivos através de sua magia e se apoderar de alguém com o ‘corpo aberto’. Por isso ele já foi visto e relatado com várias formas diferentes, inclusiva na forma de um veado. Motivo pelo qual, muitos passaram achar que ele e Anyangá eram a mesma entidade. Só que Jurupari é o espírito que rege a morte e o caos, sendo assim a contra parte de Anyangá que é o espírito que rege a vida e equilíbrio do mundo. Ele também é responsável pelos pesadelos e gosta de sentar em cima da pessoa adormecida para que ela acorde mas não consiga abrir os olhos ou mexer o corpo (paralisia do sono). Há diversos relatos de pessoas que estavam sem a alma no corpo e os pajés precisavam realizar rituais para agradar o demônio e assim devolver a alma do indivíduo. A palavra Jurupari significa ‘boca tortuosa’ pois seu rosto verdadeiro lembra a cara de um peixe cuja boca parece torta para baixo.


Boitatá: O fantasma de uma mãe zelosa

 

Boytatá /Mboitatá é um espírito em forma de serpente cujo corpo ectoplasmático é incandescente e se assemelha a labaredas de fogo. Boytatá significa ‘fogo da cobra’ e não cobra de fogo. Isso porque esse ‘fogo’ (espírito) saiu do corpo da Boyuna/Boy gwasu quando essa morreu de fraqueza após ter comido os olhos dos mortos (pessoas e animais) que encontrava boiando durante a escuridão do grande dilúvio. Os olhos carregavam em si toda a luz que haviam visto durante a vida, mas não eram alimentos nutritivos.
Boyuna governava o mundo dos mortos atormentados que fica em baixo das águas, porém tinha a oportunidade de subir para o gwajupiá o paraíso dos mortos. Ela preferiu permanecer neste mundo só para cuidar de sua filha que herdou seu lugar e passou a evitar a fuga de espíritos malignos e almas penadas para a superfície. Boytatá passou a vigiar os espelhos das águas caso alguma dessas almas conseguisse escapar. Foi durante a grande matança e queimadas sem controle que Boytatá passou a vigiar também as matas contra caçadores pois as almas assassinadas não sabiam como ir para o gwajupiá. Também não tinham motivo para serem arrastadas para o fundo dos rios. Os Gwaynumbi (beija-flores) até levavam muitas almas (de animais e plantas) no bico durante o dia, mas não conseguiam dar conta e as almas começaram a congestionar todos os cantos do mundo. Boytatá deu uma lição nos caçadores e depois recorreu à Jasy para que usasse suas estrelas formando uma estrada brilhante que todos veriam durante a noite, facilitando o trabalho dos gwaynumbi.
Desde e então, Boytatá vigia as matas castigando caçadores mal intencionados e pessoas que causam incêndios criminosos além de capturar demônios para devolvê-los ao fundo das águas

Sucuri, a verdadeira Iara


Conhecida popularmente como Iara, essa entidade toma de conta do mundo dos mortos para que as almas aprisionadas não escapem. No entendimento dos povos indígenas, incluindo os Tupis, o mundo das almas atormentadas fica em baixo das Águas. No passado, esse reino era governado pela Boyuna ou Boy gwasu (MBoiuna e MBoiguaçu em outra norma de escrita). Com a morte dessa serpente gigantesca, sua filha chamada Sukury assumiu o reinado, vestiu-se com a pele dela e se transformou também em uma serpente. Ganhou o título de Y'jara / Y'îara (dona das águas). Gosta de retomar sua forma humana da cintura para cima e sentar sobre uma pedra enquanto meche com seus cabelos e admira alguma cachoeira.

Há quem relate que a mãe d'água costuma encantar rapazes desavisados e arrastá-los para seu reino. Em versões mais contemporâneas, ela é vista como uma sereia. Talvez alguém tenha confundido o restante de seu corpo escamoso com o corpo de um peixe.